Salve pessoal!!
Hoje trago um pedaço de uma prática da minha Oficina de Vivências Moçambicanas!
Nessa oficina, além dos jogos e brincadeiras, danças e cantos populares e infantis que trago para a roda, há também a vivência da contação e criação de histórias.
Tem uma brincadeira chamada Macothi (que não sei o significado literal da palavra, se algum conterrâneo por aí souber, sua contribuição será super bem vinda), que é um jogo para criar e contar história em grupo. Vence o grupo que contar a melhor história.
Como vivência mais próxima possivel, costumo trazer para a oficina algumas dicas de roteiro para inspirar a criatividade dos participantes. Uma espécie de apanhado sobre o universo da "literatura oral".
Compartilho aqui um pouco desses insights que tive na durante a minha pesquisa:
Vejo a "literatura oral" como toda a produção dedicada a arte da palavra que é transmitida de geração pra geração e que expressa em seu conteúdo factos sobre as regras de vida, hábitos e costumes, conceitos morais e filosóficos da vida e das relações sociais de um certo povo.
Fazem parte desta literatura, os contos e/ou histórias, lendas, mitos, provérbios, advinhas e canções, ritos/rituais.
De uma forma geral, os conteúdos destas expressões apresentam com frequência interações entre o Homem e a natureza- os animais, as plantas, as águas, a terra, as montanhas, etc- destacando os comportamentos e atitudes críticas inerentes à natureza humana como a inveja, avareza, altivez, egoísmo, com intenção óbvia de incentivar à comportamentos mais “nobres” e harmoniosos.
Aparecem também como personagem, animais falantes com personalidades distintas de seus arquétipos:
- cobra/serpente- traiçoeira
- gazela- insensata, nada discreta
- coelho- esperto, ladino, astuto
- cágado/tartaruga- precavido, avisado
- hiena- fútil e ingênua
- morcego- brincalhão, doidão
- leão- vaidoso, dono de sua própria força
- elefante- chefe, sábio
- raposa- maladra
- crocodilo- silencioso e vingativo
entre outros...
Atribui-se o gênero e personalidade aos elementos paisagistas da natureza- a lua mulher, o sol homem, árvore mãe, flor menina, terra lamacenta velho, fonte de agua mulher jovem, etc.
São abordados também assuntos de convivência social e fantasia, como casamentos, feiticeiros, amor, os heróis, princesas...
Compartilho aqui duas das várias formas de fazer a prática da contação de história em Moçambique:
- Em Niassa- norte de moçambique- povo YAO
-> Ndano- História
-> Contar uma história- dano jimba
Quando em reunião, alguém quer contar uma história, esse diz:
- Tele (cheio)
Resposta dos demais:
- lokote, lokote, kaselo ndi! Lakate (comece, se o cesto está e transborda)
E assim o narrador prossegue com a sua história. Quando termina, diz com modéstia:
- nganimba’ne nyimbile, azimbile ce lisimu (o mito não é meu. é do povo de quem o recolhi)
e os ouvintes respondem com tom de aprovação:
- ajokole citolo cita kununga (foi bom ter tirado a ratazana do fogo antes de começar a cheirar mal, isto é, fizeste bem em dizer isso, antes que alguém notasse que a história não é de tua autoria/original)- isto como um lembrete de que tudo o que sabemos já fora antes descoberto e aprendido, e que apenas nos foi repassado e hoje adaptamos à realidade atual.
- Em Maputo- sul de moçambique- povo xi ronga, changane/ xi tswa
Normalmente são somente os mais velhos que têm a permissão de contar história pois são eles que trazem mais sabedoria. Ao começar ele diz:
karingana wa karingana (que é como se fosse era uma vez)
todos respondem:
karingana
E o narrador repete:
karingana wa karingana
e todos respondem:
karingana
e então ele começa a história. Repete o chamado “karingana wa karingana” ao longo da história para chamar à atenção de todos de volta para ele e checar se estão todos atentos à lógica de pensamentos que ele está a transmitir. E no final da história ele diz de novo:
karingana wa karingana
e finalmente todos respondem:
karingana
Referências bibliográficas:
- O POVO YAO- subsídios para o estudo de um povo do noroeste de Moçambique; Amaral, Manuel Gama; Instituto de Investigação Científica e Tropical; Lisboa-1990
- Vivências orais particulares
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