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22 August 2016

Sobre a "Literatura Oral" em Moçambique.

Salve pessoal!!

Hoje trago um pedaço de uma prática da minha Oficina de Vivências Moçambicanas!

Nessa oficina, além dos jogos e brincadeiras, danças e cantos populares e infantis que trago para a roda, há também a vivência da contação e criação de histórias.

Tem uma brincadeira chamada Macothi (que não sei o significado literal da palavra, se algum conterrâneo por aí souber, sua contribuição será super bem vinda), que é um jogo para criar e contar história em grupo. Vence o grupo que contar a melhor história.

Como vivência mais próxima possivel, costumo trazer para a oficina algumas dicas de roteiro para inspirar a criatividade dos participantes. Uma espécie de apanhado sobre o universo da "literatura oral".

Compartilho aqui um pouco desses insights que tive na durante a minha pesquisa:



Vejo a "literatura oral" como toda a produção dedicada a arte da palavra que é transmitida de geração pra geração e que expressa em seu conteúdo factos sobre as regras de vida, hábitos e costumes, conceitos morais e filosóficos da vida e das relações sociais de um certo povo.
Fazem parte desta literatura, os contos e/ou histórias, lendas, mitos, provérbios, advinhas e canções, ritos/rituais.

De uma forma geral, os conteúdos destas expressões apresentam com frequência interações entre o Homem e a natureza- os animais, as plantas, as águas, a terra, as montanhas, etc- destacando os comportamentos e atitudes críticas inerentes à natureza humana como a inveja, avareza, altivez, egoísmo, com intenção óbvia de incentivar à comportamentos mais “nobres” e harmoniosos. 

Aparecem também como personagem, animais falantes com personalidades distintas de seus arquétipos:
  • cobra/serpente- traiçoeira
  • gazela- insensata, nada discreta
  • coelho- esperto, ladino, astuto
  • cágado/tartaruga- precavido, avisado
  • hiena- fútil e ingênua
  • morcego- brincalhão, doidão
  • leão- vaidoso, dono de sua própria força
  • elefante- chefe, sábio
  • raposa- maladra
  • crocodilo- silencioso e vingativo

entre outros...

Atribui-se o gênero e personalidade aos elementos paisagistas da natureza- a lua mulher, o sol homem, árvore mãe, flor menina, terra lamacenta velho, fonte de agua mulher jovem, etc.
São abordados também assuntos de convivência social e fantasia, como casamentos, feiticeiros, amor, os heróis, princesas...



Compartilho aqui duas das várias formas de fazer a prática da contação de história em Moçambique:
  1. Em Niassa- norte de moçambique- povo YAO

-> Ndano- História
-> Contar uma história- dano jimba

Quando em reunião, alguém quer contar uma história, esse diz:
- Tele (cheio)

Resposta dos demais:
- lokote, lokote, kaselo ndi! Lakate (comece, se o cesto está e transborda)

E assim o narrador prossegue com a sua história. Quando termina, diz com modéstia:
- nganimba’ne nyimbile, azimbile ce lisimu (o mito não é meu. é do povo de quem o recolhi)

e os ouvintes respondem com tom de aprovação:
- ajokole citolo cita kununga (foi bom ter tirado a ratazana do fogo antes de começar a cheirar mal, isto é, fizeste bem em dizer isso, antes que alguém notasse que a história não é de tua autoria/original)- isto como um lembrete de que tudo o que sabemos já fora antes descoberto e aprendido, e que apenas nos foi repassado e hoje adaptamos à realidade atual.


  1. Em Maputo- sul de moçambique- povo xi ronga, changane/ xi tswa

Normalmente são somente os mais velhos que têm a permissão de contar história pois são eles que trazem mais sabedoria. Ao começar ele diz:

karingana wa karingana (que é como se fosse era uma vez)

todos respondem:
karingana

E o narrador repete:
karingana wa karingana

e todos respondem:
karingana

e então ele começa a história. Repete o chamado “karingana wa karingana” ao longo da história para chamar à atenção de todos de volta para ele e checar se estão todos atentos à lógica de pensamentos que ele está a transmitir. E no final da história ele diz de novo:

karingana wa karingana

e finalmente todos respondem:
karingana


Referências bibliográficas:
- O POVO YAO- subsídios para o estudo de um povo do noroeste de Moçambique; Amaral, Manuel Gama; Instituto de Investigação Científica e Tropical; Lisboa-1990
- Vivências orais particulares





18 May 2016

Sobre a educação musical como ferramenta de inclusão social e cultural!

Salve, à todos.

Aqui estou mais uma vez para compartilhar mais insights criativos e intelectuais sobre essa coisa de se expressar e ser feliz fazendo arte.

Nos últimos tempos tenho recebido bastante convites para dar aulas e/ou "orientação vocal criativa e expressiva" no canto, para fazer direção artística de trabalhos artísticos musicais e teatrais abordando essa mesma linguagem da liberdade de expressão no canto e no corpo musical e performático, e também convites para falar sobre a minha relação com a arte educação e de como ela pode ser usada como ferramenta de inclusão social.

Isso tem sido muito legal... :)
Então, compartilho aqui uma das respostas que dei no "Um Jazz Por Dia" sobre o assunto, dando um Saravá aos pais, educadores e professores praticantes da arte de conduzir/orientar/apoiar o indivíduo (criança, jovem, adulto) a ser expressivo, livre e autêntico dentro da COMUN-UNIDADE social.

"Bom, para mim, a música (e todas as artes), antes de tudo, é uma manifestação. É um comportamento. É uma forma de expressão humana que expõe emoções e sensações características de um lugar, de um tempo e de uma história, cujos estão inseridos num determinado contexto social, cultural e antropológico, portanto não está dissociada dos comportamentos naturais do ser humano. Nessa ótica, ela (a música) já faz parte do indivíduo como um ser criativo, aculturado e social, e vice versa. Este indivíduo quando se expressa musicalmente, usa-se da música (própria ou popular, no sentido de música do povo/população que compõe uma cidade, estado ou nação) para se manifestar e se fazer sentir ou ser visto na sociedade na qual se insere.

Num processo de estímulo artístico musical, a inclusão de um indivíduo dá-se pela reconexão dele com a sua música interior, ligada ao seu contexto espacial, temporal e histórico particular. Se ele se identifica com essa manifestação, ele se identificará com a sociedade e se sentirá parte dela. Eu chamaria o trabalho de “inclusão social e cultural através da educação musical” como apenas uma “reconexão musical” pois o indivíduo ao se reconectar com a música que está dentro de si, ele (re) aprende a conhecê-la e a exprimi-la, resgatando assim a relação de pertença com sua arte criativa, e isso naturalmente fortalecerá sua identidade e expressividade no contexto social e cultural em que o mesmo se encontra. Seja ele nativo ou não.

Então, a educação musical é uma fantástica e importante ferramenta no contexto social em que vivemos atualmente onde estamos cada vez mais e mais distanciados da nossa arte criativa interior. Onde se manifestar musicalmente passou a ser uma prática para uns “especiais” quando trata-se de um comportamento tão natural quanto caminhar e falar. Essa dissociação gerou uma distância de nós mesmos e consequentemente uma distância ainda maior da possibilidade de conseguirmos estar livres e autênticos socialmente."

-> Que não nos falte arte para afagar a alma de quem luta para encontrar sua liberdade expressiva!! <-


04 January 2016

Regressando sem sumir | Leves pensamentos sobre o existir.

Feliz ano, povooo!!!

Acho que irei desejar isso durante os próximos 359 dias, rsrsrs... 

Estou bastante empolgada com este ano! Cheia de fé, esperança, certeza e positividade de prosperidade!!
;)

2015 foi um ano suculento e dinâmico. Para celebrar e desapegar.


Para 2016, novas experiências... Aprofundamento, despertar e re-significação da existência criativa quotidiana!! ;)

Limpando o computador, achei alguns textos meus escritos nos primeiros meses em sampa... e achei que seria legal resgatar a assiduidade e o interesse deste blog (quase) esquecido com ele.


->> Só para lembrar, este blog é meu caderninho de expressão digital publicamente compartilhada. Escreverei sobre o que me vier à alma para compartilhar: música, criatividade, expressão, ser feliz, insights, leituras, filmes, etc. <<-


A mentalização para este começo de ano, depois de 6 dias na mata atlântica do sítio do amiguinho, ao som dos grilos, arapongas e outros seres mais, e hipnotizada pela beleza dos pirilampos do vale dos vagalumes, e algumas viagens espirituais transcendentais...

... é Presença!!

Estar presente e ser presente com concentração e profundidade no instante Presente! Naquele momento. Seja ele qual for. Reagir genuinamente, com silêncio ou palavra, com olhar ou suspiro, com sorriso ou abraço... Apenas estar presente no momento do AGORA.


via GIPHY


Aí vai:

Momento de pensar
Momento de decidir
Momento de agir
Momentos de acreditar

Há momentos que tem que deixar fluir
E há momentos que tem que segurar

Há momentos de se deixar distrair
Assim como há momentos de se concentrar

Cada momento é diferente
é um tempo na jornada
é pensamento numa estrada

Tem momentos que nada conta
E tem momentos que tudo é fatal

Tem momentos que o tempo pára
E outros que tudo corre demais.

A vida é um momento!
é o momento de viver

Momento de experimentar,
Conhecer e
Aceitar

o AGORA!


O antes e o depois, são momentos irreais!
Apenas momentos que balanceiam o tempo do momento ideal!!


foto de Anna Kumamoto

Nowmastê!
e
Feliz 2016.

Oxalá, reine!!


04 April 2015

Descobrindo a Autenticidade- Se Cavucando e Sendo Feliz

Quando comecei a cantar não fazia a mínima ideia que poderia algum dia fazer carreira disso.

Comecei com a música aos 5 anos e sempre foi uma arte que me moveu de uma forma particularmente profunda. Como nada mais me movia... Literalmente...

Quando me disseram que não tinha sido aceite para cantar e tocar no piano, a música "Nha Vida" da Lura no concerto de final de ano, que por acaso era meu ano de formação na Escola Nacional de Música em Maputo, assumi que o canto com certeza não era algo que iria tomar qualquer lugar em minha vida. Poderia até tentar investir um pouco mais no piano... mas a minha disciplina era tão ruim, que a evolução no instrumento, simplesmente não se fez presente.

Bom, me conformei, fiz paz com isso e avancei na vida.


Até que fui convidada a cantar para a Ndzilo, uma banda que estava se formando e que tocava um estilo diferente do que eu estava habituada a ouvir mas que me agradava bastante. Afrojazz é o nome o qual se chamava. Fazendo um dueto com uma menina, cantávamos músicas autorais em português e changane, faziamos coreografias para as músicas, criávamos trajes artísticos  e diferentes para as nossas apresentações em jantares, bares, concursos, etc. Seguimos juntos durante cerca de 3 anos.

A minha auto estima como cantora foi se construindo... mas sem grandes expectativas. Só porque era legal mesmo, dançar e me divertir em frente das pessoas, no palco, sem ser chamada de louca… :)
A sensação de liberdade de ser quem eu queria ser naquele momento, sem cobranças, metas, expectativas era muito legal!! Então continuei…

Mais tarde, a banda se separou e eu continuei… fluidamente. Me reconhecendo nesse lugar… até que vi que não conseguia mais "não brincar de me divertir em frente das pessoas sem ser chamada de louca"!!


Era muito boooom!!! Estar no palco, cantar para as pessoas...


Me apercebi que podia fazer isso de jeitos diferentes. Então investi nessa vontade, e organizei durante os anos seguintes apresentações minhas com banda, usando instrumentistas e formações diferentes. Fiz parcerias e fui bebendo da arte que me chegava e rodeava. Experimentei dos mais variados estilos musicais, nos mais variados tipos de eventos, explorando criações minhas, músicas de outros com as quais me identificava. Enfim, descobrindo e reconhecendo minha autenticidade.

Quando larguei a faculdade de Ciências Biológicas, 5 anos depois, sem avisar aos meus pais,

para seguir música como carreira, estava completamente sem a mínima ideia de por onde deveria começar, mesmo já tendo uma caminhada caprichada. Seguindo, então o conselho da mana Tina, fui aprender com quem já fazia isso há 30 anos. Fui então fazer backing vocal para o Stewart Sukuma e sua banda durante um ano e meio, com quem fiz algumas viagens pela europa e brasil além de ter tocado em várias casas de pasto em Maputo.


Esse era um lugar que não gostava muito de estar, na verdade, porque acreditava que as habilidades criativas do indivíduo eram menos exploradas e/ou valorizadas. Sempre gostei de liderar e estar à frente para fazer as coisas acontecerem.


Acontece que estava enganada!! Pois foi neste lugar onde mais tive espaço emocional e criativo para investir despretensiosamente nas minha aspirações e inspirações. Além de poder aprender a arte de ser profissional e de dar valor aquilo que se ama. Ao estar fora de destaque, pude ME dar espaço para descobrir e reconhecer a minha voz, vê la como um instrumento de trabalho e como ferramenta importante e vital para minha expressão e comunicação com o mundo. Pude entrar em contato com as diferentes dinâmicas que poderiam ser construídas com o uso da voz e como ela pode ocupar  lugares e funções diferentes em diferentes situações. Isso aumentou em 100% os pontos da voz como meu instrumento favorito. ;)


E, facto que, é dos instrumentos mais completos que existem no universo!


Este foi o lugar que me permitiu investir em aprofundar na minha criatividade e autenticidade.
Me fiz perguntas como: O que mais há para descobrir desse (meu) universo??? Que mais dá para fazer??? Onde posso chegar??

Desde então, comecei a observar e a listar as minhas habilidades como artista. Recorri aos meus mestres para buscar inspiração nesse processo.

"Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece!"

Bobby Mcferrin conta em suas entrevistas que, quando ele quis investigar-se para descobrir quem ele era artisticamente, parou de escutar cantores durante uns dois anos, (não literalmente, claro, porque é impossivel) e se trancava num quarto, ligava o gravador e improvisava durante 10 minutos (no mínimo), sem parar.

Este é um exercício que gera MOVIMENTO e FLUXO CRIATIVO!! "Auto cavucação"!!

Se descobrir e se reconhecer no que você encontra e estimular a CORAGEM de continuar!!

Essa é uma teoria que se aplica facilmente no nosso dia a dia. Se Observar, Cavucar, Reconhecer, Experimentar, Explorar, Fluir, Reciclar... Senão a gente morre!! De espírito, energia vital, mente e corpo físico!

(…)

Escolhi viver assim o resto dos meus dias!!

Hoje! Aqui! Agora! Em São Paulo, há dois anos e meio longe da minha terra, longe da minha zona de conforto, vivo intensamente essa busca e colho seus frutos.

Hoje, publico este blog, com muito AMOR e com muita ALEGRIA. Será um lugar onde irei (com) partilhar as vivências dessa "cavucação" de mim mesma: Humana, Mulher, Artista, Cantora, Estrangeira, Moçambicana, Cidadã do mundo, esperando que, nessa coisa de sermos únicos mas somos todos iguais- HUMANOS, você se descubra e se apaixone por sua própria AUTENTICIDADE!!

Sempre com leveza, fluidez e liberdade!! Se Cavucando e sendo feliz!!

Amo você!


Lenna Bahule